Era habitual rasgar os papéis depois da festa acabar. As caixas maiores primeiro, depois as menores e por último os embrulhos que não eram firmes. Devem ser roupas, ou meias. Dizia baixinho. Aquilo que não servisse como brinquedo não prestava. As caixas de papelão eram transformadas em ótimos carrinhos de trem fantasma ou em casa de boneca feita com rolo de papel. 

Quando todos iam embora, logo que a luz do quarto apagava, a prenda favorita daquele aniversário ficava guardada debaixo do travesseiro, até o momento em que outra distração tomasse conta do espaço. No aniversário de quinze anos, ganhei o álbum “Back to Black” da Amy Winehouse, e foi ali que o ritual dos embrulhos terminou. Não havia convidados. Tinha duas amigas próximas e só. Não, não vou escrever aqui sobre o bullying sofrido e os motivos das ausências. Tenho dois livros publicados que escrevi para essas escaras. O que realmente importa é que as festas passaram a ser ouvidas para pulsar mentira. 

As grandes mesas decoradas com enfeites e bolo seriam o cenário perfeito para o circo de baratas que contrataria para animar as próximas comemorações. Como pele superficial que recobre o oco, os aniversários recobrem a ideia do fim. Diante das festas que tanto apreciava, o que diria para o menino que fui no relógio invertido?

Apenas haveria de apagar as luzes, vestiria a roupa abandonada na caixa das ideias derrotadas. Na hora que falassem “E como é que é? É pique…” Ecoariam vozes em minha cabeça, e não seriam dos convidados, mas meu corpo em busca de outros seres, aqueles que nunca chegarão, pois só existem quando estou sozinho ou quando os humanos dormem.

Sobre o menino, poderia dizer para deixar o vento crescer no único corpo que lhe coube como cela e agradecer o tempo que ampulhetas foram quebradas e sua areia transformada em argila por oração forte.

Matar-me a cada aniversário e estruturar a linearidade para não mexer com os suicidas. Mais um ano e ele apagou as velinhas. Sempre foi essa luta, começa pelo estômago, termina pela boca. O primeiro pedaço vai para quem? Para ninguém, deixemos ele quieto e sozinho na mesa, logo minhas outras amigas e amigos chegarão.

Victor Grizzo
Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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